Um passo pra trás, dois pra frente

Há algum tempo venho vivendo uma inquietação, quase beirando à crise criativa, motivada por um ceticismo quanto ao mercado e sua pasteurização. Tirar o ano para apenas ministrar aulas foi a maneira que encontrei para lidar com essa inquietação. Em meio a tantos trabalhos de qualidade duvidosa, seja de roteiro e arte, comecei a questionar o meu próprio trabalho e o meu posicionamento no meio.

Nesse período, assisti a alguns documentários com opiniões fortes, e igualmente céticas e pessimistas, de profissionais gabaritados, como “Malditos Cartunistas” e “Rodolfo Zalla: Ao mestre com carinho”. Assisti também ao documentário sobre Robert Crumb. E li alguns livros, como “Stan Lee: O reinventor dos super-heróis”, de Roberto Guedes, e “Marvel Comics: A história secreta”, de Sean Howe.

Abandonei os quadrinhos vigentes de super-heróis (com suas tramas pífias e personagens descaracterizados). Passei a consumir republicações como nunca (e gibis antigos de segunda mão). Voltei a ler Disney e a admirar ainda mais os seus autores, principalmente o brasuca Gustavo Machado e o italiano Giorgio Cavazzano. Voltei à Moebius e Will Eisner. E agora, lendo o livro “Eisner/Miller”, começo a enxergar novamente um prazer na arte.

Frank Miller não é mais o mesmo. Will Eisner partiu como o mestre que sempre foi. Mas nesse livro, ambos abordam pontos muito pertinentes. Falam sobre como os quadrinhos estão realistas demais, com detalhes em demasia na arte e cores que não ajudam na narrativa, mas contribuem para uma poluição visual no qual todo mundo “grita” ao mesmo tempo. Falam sobre como os desenhistas não sabem desenhar para cores, como carregam nos pormenores desnecessariamente em nome desse mesmo (paranóico) realismo. E falam também sobre como os quadrinhos são impressionistas e que deveriam voltar a sê-lo.

Era esta a resposta que eu buscava, pelo menos por ora. Coisas que eu já falava antes e que já tentava aplicar em minha arte. Impressionismo! O leitor completa o seu desenho. Você o convida a participar da ação. Quadrinhos é abstrair o desnecessário para que o leitor preencha com o seu olhar.

Assim, depois desse passo pra trás, é chegada a hora de dar dois passos pra frente.

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Quadrinhos que fiz para o álbum do Capitão Rapadura: 40 Anos já buscando essa “abstração impressionista” na arte, se é que se pode falar assim.

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