Não é difícil, apenas trabalhoso

Quando alguém me pergunta se é muito difícil desenhar, costumo responder que não existe nada difícil, mas sim algo que a pessoa ainda não sabe fazer. Veja bem, em pleno século 21 ainda encontramos no pensamento das pessoas aquela visão medieval do desenho – e das artes em geral – de que o indivíduo que detém o ofício, o faz por dom quase divino e mágico destinado a poucos e renegado a reles mortais. Isso não poderia estar mais longe da verdade.

Todo ser humano nasce com a aptidão artística e que, na verdade, significa dizer que primeiro vamos desenvolvendo o meio de comunicação mais antigo do mundo, que existe desde que o homem é homem e remete ao tempo das cavernas: a linguagem não-verbal. Nessa linguagem está incluída, claro, o desenho – e a pintura e a gravura e por aí vai. Em seguida vamos desenvolvendo a linguagem verbal através da repetição de sons, comumente chamada de fala. Nesse período geralmente entramos na escola e começamos a aprender a escrita.

É nessa fase em que se divide os que continuam desenhando dos que não continuam desenhando na idade adulta. É comum no período escolar o ser humano ir deixando a linguagem não-verbal um pouco de lado. E isso inclui o desenho. Quando adulto, a única coisa que se consegue colocar no papel são os resquícios de memória da fase infantil (casinha, solzinho, florzinha e bonecos de palitinho). Mas isso tem solução!

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Como toda atividade humana, o desenho também é passível de ser sistematizado. E existem inúmeros métodos para resgatar na mente humana a habilidade da aptidão artística. No entanto, esbarramos na célebre questão de que “é muito difícil desenhar”. Isso dificulta o desenvolvimento e a prática da habilidade. A pessoa, com a visão medieval das artes – o dom – acha que vai sair desenhando de uma hora pra outra. Ou que não vai desenhar nunca! E não é assim que funciona. Nesse momento, costumo citar uma série de exemplos, a começar pela capacidade de andar.

Quando começamos a andar, também era muito “difícil”, mas não desistimos na primeira queda. Continuamos tentando e hoje andamos muito bem! Quando começamos a soletrar as primeiras sílabas, também era muito difícil. Mas continuamos e hoje lemos, falamos e escrevemos naturalmente. É assim quando aprendemos a andar de bicicleta, dirigir, nadar, tomar banho, nos trocar… O nosso primeiro beijo é um desastre, ora! E não desistimos de beijar! Não vou nem falar da primeira transa…

Com o desenho funciona da mesma forma. O que vai fazer o ser humano desenvolver – e não aprender, porque ninguém aprende a desenhar – a sua habilidade, são os estudos dos métodos e a prática constante, diariamente, ininterrupta, até que a capacidade de desenhar esteja tão sistematizada na mente quanto a habilidade de ir ao banheiro, fazer as necessidades e se limpar! Nesse ponto ajuda também se praticar o ato do desapego. Entender que os primeiros rascunhos dificilmente vão sair “perfeitos” do jeito que a pessoa espera (não foi assim quando cozinhou arroz nas primeiras vezes, porque haveria de ser com o desenho?). Entender que o desenho é uma atividade como qualquer outra, mas que exige empenho e suor, não apenas inspiração ou dom divino. E que, se um ser humano consegue fazer, qualquer outro ser humano também é capaz de fazer a mesma coisa, desde que se empenhe para tanto. Com isso em mente, a prática não deixará de ser menos trabalhosa, mas com certeza perderá muito da sua dificuldade.

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