Passo-a-passo: A Pequena Sereia e a Bruxa do Mar

Não sei se você sabe, mas no curso de Design Gráfico do Centro Universitário Estácio do Ceará temos uma disciplina de Ilustração no terceiro semestre, na qual costumo fazer algumas demonstrações para os alunos quando chegamos no tema “materiais e técnicas”. O passo-a-passo a seguir foi produzido durante as aulas e mostro a criação de uma ilustração com técnica mista para A Pequena Sereia.

00 pequena sereia e a bruxa do mar_rafe 01

PASSO 01: O RAFE – No início do semestre, os alunos recebem um texto clássico para produzir as ilustrações que comporão o portfólio da primeira avaliação. Como a brincadeira aqui não é de “casa de ferreiro, espeto de pau”, também sigo as mesmas orientações passadas em sala. Assim, após a decupagem do texto, fiz o rafe de dois trechos que escolhi para serem ilustrados. Comecei com a cena do encontro da Pequena Sereia com a Bruxa do Mar.

01 pequena sereia e bruxa do mar_esboço

PASSO 02: O ESBOÇO – O traço foi feito com lapiseira 0,3mm e grafite 2H sobre papel algodão. O original está bem mais claro que este, já que dei uma escurecida no Photoshop pra ficar melhor de enxergar! O motivo do traço bem claro é simples: como a base do acabamento será com Aquarela, a ideia é que o lápis interfira pouco no resultado final.

02 pequena sereia e bruxa do mar_traço 01

PASSO 03: OS CONTORNOS – Geralmente gosto de fazer os contornos por último, depois da última pincelada de cores (e se tiver necessidade!). Mas já que o propósito aqui é sair da zona de conforto, fiz o contorno antes com canetinhas e “matizei” algumas áreas de cinza com canetas marcadores. O propósito desse cinza é quebrar um pouco a saturação da cor na hora da pintura. Esses contornos também podem ser feitos com lápis de cor secos. Se usar aquareláveis, recomendo deixar por último mesmo pra não danificar com a água na hora da pintura.

03 pequena sereia e bruxa do mar_textura 01

PASSO 04: A TEXTURA – “Sujei” a ilustra com areia molhada pra criar algumas texturas e esse efeito de… sujeira mesmo! Pode ser feito com café ou qualquer outro meio que gere sujeira! Além disso, não dá pra enxergar, mas fiz alguns “sulcos” no papel com objetos pontiagudos e esfreguei vela pelo papel todo!

04 pequena sereia e bruxa do mar_cor 01

PASSO 05: A COR – Aqui já dá pra ver o resultado dos sulcos e da vela sobre o papel. A pintura fica mais irregular (já que estamos no fundo do mar…). A pintura feita com tinta Aquarela ainda não tem contraste (está “lavada”, sem trocadilhos!).

06 pequena sereia e bruxa do mar_cor 03

PASSO 06: CONTRASTE – Acrescentei as sombras e valorizei mais a linhas dos contornos que haviam sido cobertos. Com uma caneta posca branca adicionei as linhas de brilho mais espessas e, com uma caneta gel branca, iluminei as escamas da Bruxa do Mar. Ainda assim, após escanear, dupliquei a camada e coloquei no modo “Multiplicação” do Photoshop para deixar as áreas escuras ainda mais contrastantes. Como trata-se de uma ilustração analógica, a ideia é interferir o menos possível no computador (não que seja proibido, nem nada!).

Este é o resultado! Inté a próxima!

Anúncios

Dicas Ilustradas: Máscara da Ilusão

O britânico Dave Mckean é popularmente conhecido como “o cara que fez as capas do Sandman”. Mas ele é mais do que isso. Muito mais! Embora não seja pouca coisa ser capista do Sandman, Mckean também é artista plástico, desenhista, quadrinhista, diretor de arte, designer gráfico, escritor, fotógrafo, músico e ilustrador (dentre outras coisas!). E o mais impressionante é que o cara faz tudo isso bem!

Como quadrinhista, já produziu obras sensacionais, como “Batman: Asilo Arkham”, a graphic novel que mais tarde daria título à franquia de jogos do homem morcego. Sempre ao lado de grandes feras dos roteiros como Grant Morrinson (que escreveu o “Asilo Arkham”), e o seu parceiro de longa data Neil Gaiman.

Foi justamente com Neil Gaiman que Dave Mckean mais colaborou. Nos quadrinhos, a dupla produziu preciosidades como “Orquídea Negra”, “Violent Cases”, “Mr. Punch”, “Sinal e Ruído”… apenas para citar alguns! Essa parceria também foi levada para os livros ilustrados, de onde saiu “Os Lobos dentro das paredes”, “Cabelo doido” e a primeira versão de “Coraline”, em que Mckean fez belíssimas ilustrações com bico de pena, pincel e nanquim.

Diante de tantos trabalhos, o que mais faltava? Dave Mckean em “movimento”, claro! Foi daí que surgiu o filme “Máscara da Ilusão”, com história por Mckean e Gaiman, roteiro de Gaiman e direção de Mckean. Além de um terceiro parceiro na produção, a “Jim Henson Company”, conhecida por criar os Muppets e dar vida às Tartarugas Ninja nos filmes das décadas de 80 e 90.

Máscara da Ilusão é uma espécie de “O que aconteceria se Dave Mckean fizesse a sua versão de Alice no País das Maravilhas?”. O filme conta a história de Helena, uma menina que trabalha no circo, mas que gostaria de ter uma vida comum. Tal qual Alice, ela embarca em uma jornada para uma terra fantástica e precisa encontrar a tal máscara da ilusão para poder voltar pra casa.

Tudo o que caracteriza o trabalho de Dave Mckean está no filme. Seus personagens exóticos e com visual estilizado; os cenários fantásticos (mesmo os do “mundo real”); as cores ora saturadas, ora dessaturadas; as colagens de elementos estranhos; e até a ilustração! A experimentação imagética que é a sua marca nos quadrinhos, livros ilustrados e capas de CD de bandas de rock e heavy metal, estão em cada frame desse filme. Em determinado momento, é até difícil prestar atenção no enredo sem ficar observando cada detalhe do visual.

Para quem ainda não conhece o trabalho do Dave Mckean, o filme Máscara da Ilusão é uma ótima porta de entrada. Depois de subirem os créditos finais, vai ser impossível não querer correr pra livraria!

Para assistir ao trailer, clique aqui.

Não é difícil, apenas trabalhoso

Quando alguém me pergunta se é muito difícil desenhar, costumo responder que não existe nada difícil, mas sim algo que a pessoa ainda não sabe fazer. Veja bem, em pleno século 21 ainda encontramos no pensamento das pessoas aquela visão medieval do desenho – e das artes em geral – de que o indivíduo que detém o ofício, o faz por dom quase divino e mágico destinado a poucos e renegado a reles mortais. Isso não poderia estar mais longe da verdade.

Todo ser humano nasce com a aptidão artística e que, na verdade, significa dizer que primeiro vamos desenvolvendo o meio de comunicação mais antigo do mundo, que existe desde que o homem é homem e remete ao tempo das cavernas: a linguagem não-verbal. Nessa linguagem está incluída, claro, o desenho – e a pintura e a gravura e por aí vai. Em seguida vamos desenvolvendo a linguagem verbal através da repetição de sons, comumente chamada de fala. Nesse período geralmente entramos na escola e começamos a aprender a escrita.

É nessa fase em que se divide os que continuam desenhando dos que não continuam desenhando na idade adulta. É comum no período escolar o ser humano ir deixando a linguagem não-verbal um pouco de lado. E isso inclui o desenho. Quando adulto, a única coisa que se consegue colocar no papel são os resquícios de memória da fase infantil (casinha, solzinho, florzinha e bonecos de palitinho). Mas isso tem solução!

20140324_103154

Como toda atividade humana, o desenho também é passível de ser sistematizado. E existem inúmeros métodos para resgatar na mente humana a habilidade da aptidão artística. No entanto, esbarramos na célebre questão de que “é muito difícil desenhar”. Isso dificulta o desenvolvimento e a prática da habilidade. A pessoa, com a visão medieval das artes – o dom – acha que vai sair desenhando de uma hora pra outra. Ou que não vai desenhar nunca! E não é assim que funciona. Nesse momento, costumo citar uma série de exemplos, a começar pela capacidade de andar.

Quando começamos a andar, também era muito “difícil”, mas não desistimos na primeira queda. Continuamos tentando e hoje andamos muito bem! Quando começamos a soletrar as primeiras sílabas, também era muito difícil. Mas continuamos e hoje lemos, falamos e escrevemos naturalmente. É assim quando aprendemos a andar de bicicleta, dirigir, nadar, tomar banho, nos trocar… O nosso primeiro beijo é um desastre, ora! E não desistimos de beijar! Não vou nem falar da primeira transa…

Com o desenho funciona da mesma forma. O que vai fazer o ser humano desenvolver – e não aprender, porque ninguém aprende a desenhar – a sua habilidade, são os estudos dos métodos e a prática constante, diariamente, ininterrupta, até que a capacidade de desenhar esteja tão sistematizada na mente quanto a habilidade de ir ao banheiro, fazer as necessidades e se limpar! Nesse ponto ajuda também se praticar o ato do desapego. Entender que os primeiros rascunhos dificilmente vão sair “perfeitos” do jeito que a pessoa espera (não foi assim quando cozinhou arroz nas primeiras vezes, porque haveria de ser com o desenho?). Entender que o desenho é uma atividade como qualquer outra, mas que exige empenho e suor, não apenas inspiração ou dom divino. E que, se um ser humano consegue fazer, qualquer outro ser humano também é capaz de fazer a mesma coisa, desde que se empenhe para tanto. Com isso em mente, a prática não deixará de ser menos trabalhosa, mas com certeza perderá muito da sua dificuldade.

20140401_191444