O desafio do P&B

Às vezes tenho a sensação de que a minha vida artística – e pessoal também – gira em torno de grandes “sacadas”. Li uma vez (vi ou escutei, não vou lembrar agora) que, se você quer aprender a fazer arte em cores, qualquer que seja ela, comece praticando o preto e branco. O que poderia não fazer muito sentido à priori, começa a revelar-se como sendo um grande achado.

Imaginar-se diante de apenas uma “cor” é um tanto quanto amedrontador de início. Entretanto, à medida em que nos acostumamos a “pensar” em tons, aquela única possibilidade do preto começa a parecer uma paleta infinita. Deixamos de pensar em linhas e passamos a enxergar o trabalho com pesos diferentes de escala de cinza. Conseguimos estabelecer volumes, planos e outros recursos visuais que não éramos capazes de fazer antes.

E o que isso tem a ver com as cores? Tudo! Depois que o “olho” acostuma-se a enxergar o desenho através de tons, fica mais fácil definir qual a cor mais adequada a se aplicar. O desenho – ou a pintura – não será mais um amontoado de matizes saturados, mas uma miscelânea de tonalidades que vão definir a dramaticidade da obra.

Trabalhar com o monocromático também ajuda nesse caso. Escolher uma única cor e trabalhar toda a composição modificando em sua mistura apenas a quantidade de branco e preto. A limitação da paleta faz com que a percepção visual aflore cada vez mais. O cérebro naturalmente buscará soluções pictóricas que fatalmente estarão também no momento em que se utilizar a paleta completa. Desenhar – ou pintar – em P&B pode ser um grande desafio, mas a recompensa é deveras estimulante.

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Um passo pra trás, dois pra frente

Há algum tempo venho vivendo uma inquietação, quase beirando à crise criativa, motivada por um ceticismo quanto ao mercado e sua pasteurização. Tirar o ano para apenas ministrar aulas foi a maneira que encontrei para lidar com essa inquietação. Em meio a tantos trabalhos de qualidade duvidosa, seja de roteiro e arte, comecei a questionar o meu próprio trabalho e o meu posicionamento no meio.

Nesse período, assisti a alguns documentários com opiniões fortes, e igualmente céticas e pessimistas, de profissionais gabaritados, como “Malditos Cartunistas” e “Rodolfo Zalla: Ao mestre com carinho”. Assisti também ao documentário sobre Robert Crumb. E li alguns livros, como “Stan Lee: O reinventor dos super-heróis”, de Roberto Guedes, e “Marvel Comics: A história secreta”, de Sean Howe.

Abandonei os quadrinhos vigentes de super-heróis (com suas tramas pífias e personagens descaracterizados). Passei a consumir republicações como nunca (e gibis antigos de segunda mão). Voltei a ler Disney e a admirar ainda mais os seus autores, principalmente o brasuca Gustavo Machado e o italiano Giorgio Cavazzano. Voltei à Moebius e Will Eisner. E agora, lendo o livro “Eisner/Miller”, começo a enxergar novamente um prazer na arte.

Frank Miller não é mais o mesmo. Will Eisner partiu como o mestre que sempre foi. Mas nesse livro, ambos abordam pontos muito pertinentes. Falam sobre como os quadrinhos estão realistas demais, com detalhes em demasia na arte e cores que não ajudam na narrativa, mas contribuem para uma poluição visual no qual todo mundo “grita” ao mesmo tempo. Falam sobre como os desenhistas não sabem desenhar para cores, como carregam nos pormenores desnecessariamente em nome desse mesmo (paranóico) realismo. E falam também sobre como os quadrinhos são impressionistas e que deveriam voltar a sê-lo.

Era esta a resposta que eu buscava, pelo menos por ora. Coisas que eu já falava antes e que já tentava aplicar em minha arte. Impressionismo! O leitor completa o seu desenho. Você o convida a participar da ação. Quadrinhos é abstrair o desnecessário para que o leitor preencha com o seu olhar.

Assim, depois desse passo pra trás, é chegada a hora de dar dois passos pra frente.

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Quadrinhos que fiz para o álbum do Capitão Rapadura: 40 Anos já buscando essa “abstração impressionista” na arte, se é que se pode falar assim.

Encontro de Morcegos!

O nosso querido Cruzado de Capa (sou de antes do termo “Cavaleiro das Trevas”) está completando 75 anos de criação. Para comemorar – e fazer parte dessa festa grandiosa – resolvi promover o encontro do Batman com outro personagem muito querido por mim, o “Cavaleiro das Dívidas” Morcego Verde. Confira o resultado:

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