Não é difícil, apenas trabalhoso

Quando alguém me pergunta se é muito difícil desenhar, costumo responder que não existe nada difícil, mas sim algo que a pessoa ainda não sabe fazer. Veja bem, em pleno século 21 ainda encontramos no pensamento das pessoas aquela visão medieval do desenho – e das artes em geral – de que o indivíduo que detém o ofício, o faz por dom quase divino e mágico destinado a poucos e renegado a reles mortais. Isso não poderia estar mais longe da verdade.

Todo ser humano nasce com a aptidão artística e que, na verdade, significa dizer que primeiro vamos desenvolvendo o meio de comunicação mais antigo do mundo, que existe desde que o homem é homem e remete ao tempo das cavernas: a linguagem não-verbal. Nessa linguagem está incluída, claro, o desenho – e a pintura e a gravura e por aí vai. Em seguida vamos desenvolvendo a linguagem verbal através da repetição de sons, comumente chamada de fala. Nesse período geralmente entramos na escola e começamos a aprender a escrita.

É nessa fase em que se divide os que continuam desenhando dos que não continuam desenhando na idade adulta. É comum no período escolar o ser humano ir deixando a linguagem não-verbal um pouco de lado. E isso inclui o desenho. Quando adulto, a única coisa que se consegue colocar no papel são os resquícios de memória da fase infantil (casinha, solzinho, florzinha e bonecos de palitinho). Mas isso tem solução!

20140324_103154

Como toda atividade humana, o desenho também é passível de ser sistematizado. E existem inúmeros métodos para resgatar na mente humana a habilidade da aptidão artística. No entanto, esbarramos na célebre questão de que “é muito difícil desenhar”. Isso dificulta o desenvolvimento e a prática da habilidade. A pessoa, com a visão medieval das artes – o dom – acha que vai sair desenhando de uma hora pra outra. Ou que não vai desenhar nunca! E não é assim que funciona. Nesse momento, costumo citar uma série de exemplos, a começar pela capacidade de andar.

Quando começamos a andar, também era muito “difícil”, mas não desistimos na primeira queda. Continuamos tentando e hoje andamos muito bem! Quando começamos a soletrar as primeiras sílabas, também era muito difícil. Mas continuamos e hoje lemos, falamos e escrevemos naturalmente. É assim quando aprendemos a andar de bicicleta, dirigir, nadar, tomar banho, nos trocar… O nosso primeiro beijo é um desastre, ora! E não desistimos de beijar! Não vou nem falar da primeira transa…

Com o desenho funciona da mesma forma. O que vai fazer o ser humano desenvolver – e não aprender, porque ninguém aprende a desenhar – a sua habilidade, são os estudos dos métodos e a prática constante, diariamente, ininterrupta, até que a capacidade de desenhar esteja tão sistematizada na mente quanto a habilidade de ir ao banheiro, fazer as necessidades e se limpar! Nesse ponto ajuda também se praticar o ato do desapego. Entender que os primeiros rascunhos dificilmente vão sair “perfeitos” do jeito que a pessoa espera (não foi assim quando cozinhou arroz nas primeiras vezes, porque haveria de ser com o desenho?). Entender que o desenho é uma atividade como qualquer outra, mas que exige empenho e suor, não apenas inspiração ou dom divino. E que, se um ser humano consegue fazer, qualquer outro ser humano também é capaz de fazer a mesma coisa, desde que se empenhe para tanto. Com isso em mente, a prática não deixará de ser menos trabalhosa, mas com certeza perderá muito da sua dificuldade.

20140401_191444

Um passo pra trás, dois pra frente

Há algum tempo venho vivendo uma inquietação, quase beirando à crise criativa, motivada por um ceticismo quanto ao mercado e sua pasteurização. Tirar o ano para apenas ministrar aulas foi a maneira que encontrei para lidar com essa inquietação. Em meio a tantos trabalhos de qualidade duvidosa, seja de roteiro e arte, comecei a questionar o meu próprio trabalho e o meu posicionamento no meio.

Nesse período, assisti a alguns documentários com opiniões fortes, e igualmente céticas e pessimistas, de profissionais gabaritados, como “Malditos Cartunistas” e “Rodolfo Zalla: Ao mestre com carinho”. Assisti também ao documentário sobre Robert Crumb. E li alguns livros, como “Stan Lee: O reinventor dos super-heróis”, de Roberto Guedes, e “Marvel Comics: A história secreta”, de Sean Howe.

Abandonei os quadrinhos vigentes de super-heróis (com suas tramas pífias e personagens descaracterizados). Passei a consumir republicações como nunca (e gibis antigos de segunda mão). Voltei a ler Disney e a admirar ainda mais os seus autores, principalmente o brasuca Gustavo Machado e o italiano Giorgio Cavazzano. Voltei à Moebius e Will Eisner. E agora, lendo o livro “Eisner/Miller”, começo a enxergar novamente um prazer na arte.

Frank Miller não é mais o mesmo. Will Eisner partiu como o mestre que sempre foi. Mas nesse livro, ambos abordam pontos muito pertinentes. Falam sobre como os quadrinhos estão realistas demais, com detalhes em demasia na arte e cores que não ajudam na narrativa, mas contribuem para uma poluição visual no qual todo mundo “grita” ao mesmo tempo. Falam sobre como os desenhistas não sabem desenhar para cores, como carregam nos pormenores desnecessariamente em nome desse mesmo (paranóico) realismo. E falam também sobre como os quadrinhos são impressionistas e que deveriam voltar a sê-lo.

Era esta a resposta que eu buscava, pelo menos por ora. Coisas que eu já falava antes e que já tentava aplicar em minha arte. Impressionismo! O leitor completa o seu desenho. Você o convida a participar da ação. Quadrinhos é abstrair o desnecessário para que o leitor preencha com o seu olhar.

Assim, depois desse passo pra trás, é chegada a hora de dar dois passos pra frente.

capitao rapadura_pagina 01

Quadrinhos que fiz para o álbum do Capitão Rapadura: 40 Anos já buscando essa “abstração impressionista” na arte, se é que se pode falar assim.

Encontro de Morcegos!

O nosso querido Cruzado de Capa (sou de antes do termo “Cavaleiro das Trevas”) está completando 75 anos de criação. Para comemorar – e fazer parte dessa festa grandiosa – resolvi promover o encontro do Batman com outro personagem muito querido por mim, o “Cavaleiro das Dívidas” Morcego Verde. Confira o resultado:

morcego verde0001_baixa