Quadrinhos Educativos – Parte 5
Resposta
Quando alguém me pergunta se é muito difícil desenhar, costumo responder que não existe nada difícil, mas sim algo que a pessoa ainda não sabe fazer. Veja bem, em pleno século 21 ainda encontramos no pensamento das pessoas aquela visão medieval do desenho – e das artes em geral – de que o indivíduo que detém o ofício, o faz por dom quase divino e mágico destinado a poucos e renegado a reles mortais. Isso não poderia estar mais longe da verdade.
Todo ser humano nasce com a aptidão artística e que, na verdade, significa dizer que primeiro vamos desenvolvendo o meio de comunicação mais antigo do mundo, que existe desde que o homem é homem e remete ao tempo das cavernas: a linguagem não-verbal. Nessa linguagem está incluída, claro, o desenho – e a pintura e a gravura e por aí vai. Em seguida vamos desenvolvendo a linguagem verbal através da repetição de sons, comumente chamada de fala. Nesse período geralmente entramos na escola e começamos a aprender a escrita.
É nessa fase em que se divide os que continuam desenhando dos que não continuam desenhando na idade adulta. É comum no período escolar o ser humano ir deixando a linguagem não-verbal um pouco de lado. E isso inclui o desenho. Quando adulto, a única coisa que se consegue colocar no papel são os resquícios de memória da fase infantil (casinha, solzinho, florzinha e bonecos de palitinho). Mas isso tem solução!
Como toda atividade humana, o desenho também é passível de ser sistematizado. E existem inúmeros métodos para resgatar na mente humana a habilidade da aptidão artística. No entanto, esbarramos na célebre questão de que “é muito difícil desenhar”. Isso dificulta o desenvolvimento e a prática da habilidade. A pessoa, com a visão medieval das artes – o dom – acha que vai sair desenhando de uma hora pra outra. Ou que não vai desenhar nunca! E não é assim que funciona. Nesse momento, costumo citar uma série de exemplos, a começar pela capacidade de andar.
Quando começamos a andar, também era muito “difícil”, mas não desistimos na primeira queda. Continuamos tentando e hoje andamos muito bem! Quando começamos a soletrar as primeiras sílabas, também era muito difícil. Mas continuamos e hoje lemos, falamos e escrevemos naturalmente. É assim quando aprendemos a andar de bicicleta, dirigir, nadar, tomar banho, nos trocar… O nosso primeiro beijo é um desastre, ora! E não desistimos de beijar! Não vou nem falar da primeira transa…
Com o desenho funciona da mesma forma. O que vai fazer o ser humano desenvolver – e não aprender, porque ninguém aprende a desenhar – a sua habilidade, são os estudos dos métodos e a prática constante, diariamente, ininterrupta, até que a capacidade de desenhar esteja tão sistematizada na mente quanto a habilidade de ir ao banheiro, fazer as necessidades e se limpar! Nesse ponto ajuda também se praticar o ato do desapego. Entender que os primeiros rascunhos dificilmente vão sair “perfeitos” do jeito que a pessoa espera (não foi assim quando cozinhou arroz nas primeiras vezes, porque haveria de ser com o desenho?). Entender que o desenho é uma atividade como qualquer outra, mas que exige empenho e suor, não apenas inspiração ou dom divino. E que, se um ser humano consegue fazer, qualquer outro ser humano também é capaz de fazer a mesma coisa, desde que se empenhe para tanto. Com isso em mente, a prática não deixará de ser menos trabalhosa, mas com certeza perderá muito da sua dificuldade.
Uma vez li – ou vi, não lembro agora – um diretor de cinema, que também não vou lembrar agora quem era, falar que os efeitos especiais estavam no filme para não serem percebidos. E se fossem percebidos, é porque não estavam bons! Concordo com esse raciocínio e vou tentar explanar sobre isso.
Primeiramente, quero deixar claro que não sou diretor de cinema, não sou diretor de fotografia e muito menos técnico de efeitos especiais. Sou apenas o público-alvo que consome o produto “cinema”. Como público-alvo, incomoda-me o fato de sentar numa poltrona do cinema e ver cenas tão artificiais que impedem a minha imersão naquela realidade criada para o filme.
Vou tentar ser um pouco mais claro! Pegue como exemplo os três primeiros filmes do Indiana Jones. Você “acredita” que o arqueólogo aventureiro de fato está vivendo aquilo. Você “compra” aquela ideia e entra no filme! Agora pegue o quarto capítulo, aquele mesmo que tem título de filme da Xuxa! Em diversos momentos dá pra perceber o “fundo verde”, principalmente na cena de perseguição na Amazônia.
Não estou aqui repudiando o CGI e pedindo a volta dos efeitos práticos. Quem sou eu! Mas é um incômodo ver cenas nos quais personagens e ambientes mais parecem ser feitas de plástico! Observar aqueles personagens e ter a impressão de que não estão “lá”, mas que estão num palco com uma paisagem sendo transmitida em um telão por trás deles.
Agora, quer ver um exemplo de CGI imperceptível? Planeta dos Macacos: O Confronto! No começo do filme o espectador se maravilha com a verossimilhança dos macacos digitais. Dez minutos depois, esquece completamente disso e simplesmente entra naquele mundo. Ao invés de ficar o tempo todo dizendo “são macacos digitais”, simplesmente aceita que são macacos de “verdade” e imerge na história.
Uma grande quantidade de efeitos especiais não é desculpa para um filme inverossímil! Veja outro bom exemplo no recente Godzilla! Quer mais fundo verde do que aquele? Acontece o mesmo que em Planeta dos Macacos. Primeiramente o espectador fica boquiaberto com o nível do CGI. Depois esquece completamente e só quer saber de “sobreviver” àquela catastrófica batalha de monstros. Fica em pânico juntamente com os personagens. É crível! É imersão!
Recentemente comprei a versão estendida de O Senhor dos Anéis. Fazia tempo que não assistia a trilogia. Fiquei surpreso em perceber que, mesmo tendo sido feito há doze anos atrás, A Sociedade do Anel ainda é mais crível que os dois últimos filmes de O Hobbit, mesmo que a tecnologia atual esteja mais avançada. Ao assistir o trailer de terceiro O Hobbit, vi que a artificialidade continua a mesma. Não consigo “entrar” naquele mundo como entrei no mundo de O Senhor dos Anéis. A mesma sensação aconteceu quando vi o trailer do novo Mad Max. Enfim…
O fundo verde é muito conveniente e foi responsável por trazer à tona filmes de personagens de que gosto muito. Mas como dizia aquele diretor, quando você percebe os efeitos, por melhores que sejam, é porque não estão bons!
Andy Serkis em O Planeta dos Macacos: A origem
Há algum tempo venho vivendo uma inquietação, quase beirando à crise criativa, motivada por um ceticismo quanto ao mercado e sua pasteurização. Tirar o ano para apenas ministrar aulas foi a maneira que encontrei para lidar com essa inquietação. Em meio a tantos trabalhos de qualidade duvidosa, seja de roteiro e arte, comecei a questionar o meu próprio trabalho e o meu posicionamento no meio.
Nesse período, assisti a alguns documentários com opiniões fortes, e igualmente céticas e pessimistas, de profissionais gabaritados, como “Malditos Cartunistas” e “Rodolfo Zalla: Ao mestre com carinho”. Assisti também ao documentário sobre Robert Crumb. E li alguns livros, como “Stan Lee: O reinventor dos super-heróis”, de Roberto Guedes, e “Marvel Comics: A história secreta”, de Sean Howe.
Abandonei os quadrinhos vigentes de super-heróis (com suas tramas pífias e personagens descaracterizados). Passei a consumir republicações como nunca (e gibis antigos de segunda mão). Voltei a ler Disney e a admirar ainda mais os seus autores, principalmente o brasuca Gustavo Machado e o italiano Giorgio Cavazzano. Voltei à Moebius e Will Eisner. E agora, lendo o livro “Eisner/Miller”, começo a enxergar novamente um prazer na arte.
Frank Miller não é mais o mesmo. Will Eisner partiu como o mestre que sempre foi. Mas nesse livro, ambos abordam pontos muito pertinentes. Falam sobre como os quadrinhos estão realistas demais, com detalhes em demasia na arte e cores que não ajudam na narrativa, mas contribuem para uma poluição visual no qual todo mundo “grita” ao mesmo tempo. Falam sobre como os desenhistas não sabem desenhar para cores, como carregam nos pormenores desnecessariamente em nome desse mesmo (paranóico) realismo. E falam também sobre como os quadrinhos são impressionistas e que deveriam voltar a sê-lo.
Era esta a resposta que eu buscava, pelo menos por ora. Coisas que eu já falava antes e que já tentava aplicar em minha arte. Impressionismo! O leitor completa o seu desenho. Você o convida a participar da ação. Quadrinhos é abstrair o desnecessário para que o leitor preencha com o seu olhar.
Assim, depois desse passo pra trás, é chegada a hora de dar dois passos pra frente.
Quadrinhos que fiz para o álbum do Capitão Rapadura: 40 Anos já buscando essa “abstração impressionista” na arte, se é que se pode falar assim.
Para quem deseja ainda mais comodidade na hora de desenhar os seus gibis, disponibilizo aqui as folhas-padrão nos formatos americano, formatinho e magazine, agora com as marcações das linhas dos quadrinhos. Ou seja, a partir de agora, a sua régua estará sempre no lugar certo na hora de rascunhar os requadros! De quebra, veja também um aperitivo explicando o que significa cada área da folha-padrão. Os ensinamentos jedi completos estão, claro, na terceira edição do meu livro “A Espetacular Arte de Desenhar Quadrinhos”, que estará no estande da Editora SENAC na Bienal do Livro de São Paulo, mas que também pode ser encontrado no site das livrarias Cultura, Saraiva, Americanas e Comix. Bons desenhos!
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Antes de ser apenas professor universitário, eu dava aulas de Quadrinhos, Mangá, Ilustração, Cartoon e mais um monte de outras coisas bacanas. Além de ser muito divertido ministrar todos esses cursos, umas das coisas que eu mais gostava era de fazer os cartazes de divulgação. Era uma responsabilidade imensa, afinal, o trabalho do próprio professor já estaria “impresso” no cartaz. E sabe como é aquele ditado… “em casa de ferreiro, espeto de pau!”. Que bom que não foi o caso desses cartazes.
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