STEVE DITKO – Mais um amigo de infância que parte

Existem na cultura pop pessoas que nos são tão importantes quanto nossos próprios parentes, sejam elas da música, do cinema, das artes ou, no caso do Steve Ditko, dos quadrinhos. São pessoas que, no meu caso, crescemos lendo e guardamos nos nossos corações e mentes como verdadeiros amigos de infância. Por isso mesmo, é que dá uma sensação muito grande de tristeza quando um desses amigos partem. O mais recente foi o grande Steve Ditko.

Só conheci o Ditko do Homem-Aranha e outros trabalhos espaçados da Marvel, como o final da Guerra dos Espectros com o Rom e alguns gatos pingados dos Vingadores. Apesar de ao longo do tempo descobrir que alguns dos meus personagens favoritos da DC são criações do Ditko (Besouro Azul, Questão, Rapina e Columba…), nunca cheguei a ler as HQs produzidas por seu criador, já que só lia o que era publicado por estas bandas! Só recentemente, por exemplo, foi que pude ler uma sequência do Doutor Estranho, publicada aqui graças à visibilidade alcançada com o filme.

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Já mencionei diversas vezes que na época em que eu era moleque lia tudo o que literalmente caía nas minhas mãos! Era uma época em que não existia internet e eu era muito pobre! Então eu não tinha muita frescura como existe hoje em dia (ouvi lombada quadrada?)! Foi assim que descobri o Steve Ditko. Na época, a Abril estava publicando a fase do uniforme negro, se não me falhe a memória. Eu não acompanhava das bancas, apenas pegava emprestada ou trocava com a gurizada do bairro. Então éramos acostumados ao formatinho. Assim, não lembro exatamente como, mas eis que cai em minhas mãos uma revista do Homem-Aranha toda “diferentona” em formato americano intitulada “O Fabuloso Homem-Aranha”. Era a edição nº 06 de uma editora portuguesa, que trazia um confronto do Cabeça de Teia com o Doutor Octopus. Eu não saiba na época, mas tratava-se do segundo encontro entre os dois! Agora imagine a alegria de um moleque ao pegar aquela revista “grandona”, com papel branquinho e desenhos dinâmicos! Li e reli diversas vezes! Fiquei fascinado com aquela versão do Homem-Aranha mais esguia e ágil! E o Doutor Octopus, então? Que amedrontador! Depois dessa, só voltei a ter contato com a arte do Ditko na saudosa Heróis da TV #100 e, depois, no Superalmanaque Marvel #01.

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O tempo passou e a Editora Abril lançou a série Spider-man Collection, que trazia um gibi com republicação em p&b da fase do Steve Ditko e John Romita, mais uma fita cassete com episódios do desenho animado do Homem-Aranha. Obviamente custava os olhos da cara e eu não comprei na época do lançamento! Só adquiri tempos depois em um sebo a coleção completa (eram 16 edições, mas sem os vídeos!).

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Nessa altura do campeonato, eu já havia lido muita coisa do passado do Amigão da Vizinhança graças à revista A Teia do Aranha, mas muito pouco ainda das histórias produzidas pelo Ditko. A minha surpresa, nesse caso, não foi apenas com a qualidade e dinamismo do traço! Mas com o fato de que tudo o que eu havia lido dali em diante, tinha suas bases naquelas histórias criadas pelo Stan Lee e pelo Steve Ditko. Até as poses “contorcionistas” exageradas anos depois pelo Todd McFarlane já estavam lá (Todd, seu danadinho…)! Fiquei de queixo caído porque os dois criaram as tramas do zero, vilões do zero, personagens coadjuvantes do zero e aquilo tudo já era muito bom na época! Foi um choque ver que os autores que vieram depois apenas requentaram o que essa dupla havia desenvolvido do… zero! E requentam até hoje, diga-se de passagem! Devorei com uma voracidade incrível todas aquelas HQs do passado! E agora que mais um amigo de infância partiu, fica aqui uma pontinha de tristeza, mas com uma alegria por ter crescido ao lado de tão boa companhia. Descanse em paz, meu querido Steve Ditko!

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Imagens extraídas do site Guia dos Quadrinhos.

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Todo mundo quer ser Alan Moore, ninguém quer ser Maurício de Sousa

Esta semana tive a satisfação de gravar uma áudio-aula, a convite do meu querido amigo Raymundo Netto, para o Curso de Histórias em Quadrinhos em Sala de Aula da Fundação Demócrito Rocha. Dentre os diversos temas abordados no bate-papo, dois em especial me provocaram uma reflexão pós-gravação, que vou procurar explanar neste texto.

O primeiro, foi o velho e já batido tema de “as pessoas veem os quadrinhos como sendo coisa para crianças”. Na ocasião, parafraseei o grande Sidney Gusman ao falar “que bom que quadrinhos TAMBÉM são coisa para crianças” e acrescentei que os produtores de HQs precisam, de uma vez por todas, superar esse “complexo de vira-lata” e seguir a vida produzindo os seus gibis para o público que lhes convier. Daí, inevitavelmente desembocamos no também batido tema “mercado de quadrinhos”, no qual afirmei que não tinha opinião formada sobre isso!

Refletindo agora, continuo sem opinião formada sobre isso e cada vez mais longe de alguma solução! Mas é notório que não temos um mercado! O Brasil é enorme, a distribuição é péssima e o – pouco – público leitor está muito espaçado. Mas vejo outro problema também. Não há a renovação de leitores. E por quê? Simples! Porque todo mundo quer ser Alan Moore, mas ninguém quer ser Maurício de Sousa!

Polêmica? Vou explicar! No “meu tempo”, quando quadrinhos eram “coisa de criança”, nós tínhamos títulos para todos os gostos e bolsos, dos mais diversificados, dos melhores aos piores! Aquelas crianças que liam gibis, assim como eu, foram crescendo e se transformando em adultos. Coincidiu de também começarem a aparecer os gibis “adultos” para atender a demanda. Porém, mais do que simplesmente atender à demanda “adulta”, esses quadrinhos “sombrios e realistas” tinham como meta “provar” que HQs não eram “coisa de criança”. E o que aconteceu? Gibi deixou de ser coisa de criança! E isso foi péssimo. É péssimo até hoje!

Assim, quem consumia quadrinhos quando criança e cresceu, agora só quer produzir quadrinhos voltados para o público adulto, com tramas mais complexas, arte experimental e tudo o que tiver direito! Nada contra! Mas isso faz com que os quadrinhos produzidos atendam um público cada vez menor, até chegar ao ponto onde estamos, quando os quadrinhistas estão praticamente produzindo uns para os outros. E a renovação do público aonde fica? E as crianças que estão entrando na fase de leitura? Que vão crescer e poderiam aumentar o mercado? Quem está produzindo para elas? Quer uma resposta? Apenas o Maurício de Sousa! E sabe por quê? Porque ninguém quer produzir quadrinhos que sejam “coisa de criança”. Só querem produzir quadrinhos “adultos”. No final, todo mundo só quer ser Alan Moore, mas esquecem que, se não houver uma renovação de público, o mercado vai ficar cada vez menor!

Não adianta ficar apenas reclamando que as grandes editoras não investem em novos talentos, que o governo não incentiva ou que isso e aquilo outro! Não sei qual é a solução para melhorar o mercado. Mas sei que, se ninguém quiser produzir quadrinhos que sejam “coisa de criança”, é quase certo que a tendência é piorar. E não me venha falar sobre os “grandes eventos” com milhares de lançamentos! Enquanto o cara estiver vendendo o almoço para comprar a janta (que é o que acontece com essa onda de financiamento coletivo), e não conseguindo se sustentar apenas com a sua produção, com um salário mensal razoável, para mim, isso não é mercado. É apenas oba-oba. E me desculpe… sou artista, mas não vivo de amor à arte! A conta de luz não se paga com amor de arte!

O QUE ANDEI (RE)LENDO: GRAPHIC NOVEL

Sou da época do gibi em formatinho de papel jornal e preço de banana que tinha em qualquer banca da esquina. Aliás, sou do tempo em que existiam bancas em qualquer esquina! Mesmo com o gibi sendo baratinho, o meu poder aquisitivo não era essas maravilhas todas, então eu me virava como podia para ler. E lia de tudo! O que caía na rede, era peixe! Foi nesse cenário que, lá pelos meus 11-12 anos de idade, tive contato pela primeira vez com a série Graphic Novel da Editora Abril.

Não lembro exatamente como tomei conhecimento dessa coleção (alguém deve ter me emprestado), mas sei com certeza que foi com a primeira edição, a dos X-men! Até então, eu só havia lido o Grandes Heróis Marvel #07 com a Morte da Fênix (comecei bem!) e fiquei abismado quando toquei naquele “gibizão” dos heróis mutantes! Intitulada “O Conflito de uma raça”, a HQ inaugurava uma nova era de publicação de álbuns de luxo da Abril, em formato tipo “Veja”, papel “liso” e cores especiais. Pra quem era acostumado apenas com os formatinhos de cores chapadas, aquela revista representou um salto inimaginável de qualidade visual! Mas… isso tinha um preço! O preço de capa custava os olhos da cara, muito além do que o meu pobre bolso pudesse dar conta! Devorei cada centímetro dos quadrinhos da Graphic Novel #01 e depois, provavelmente, tive que devolver ao cara que me emprestou. Só depois é que consegui a minha própria edição, muito provavelmente através de troca!

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No início dessa coleção, a Editora Abril publicou apenas personagens da Marvel (em sua maioria) e da DC. Só depois é que diversificou para quadrinhos europeus e afins! A série fez tanto sucesso que, mais tarde, a editora resolveu criar uma coleção apenas com os heróis da Marvel, intitulada, claro, de Graphic Marvel! Mas isso é assunto para outro momento…

Como eu disse, na minha fase de moleque, eu lia de tudo e lia o que caísse na minha mão (ainda faço isso hoje em dia…)! Não tinha uma preocupação em colecionar os números em sequência das revistas. Ia guardando o que aparecia. E foi assim com a Graphic Novel. Até pouco tempo atrás, eu tinha somente as edições com HQs de super-heróis. Daí, comecei a pegar outros números para ver se as histórias prestavam e resolvi de vez fechar a coleção! Agora, deve faltar apenas uns sete números pra fechar tudo! Mas como nasci de sete meses, tive a ideia de (re)ler pela primeira vez em ordem numérica, mesmo com a coleção ainda incompleta (e o que é que tem, né?)!

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A primeira edição, como já mencionei, é dedicada aos X-men e me surpreendeu quando moleque, não apenas pelo “luxo” da revista, mas pela história pé no chão dos mutantes.

O segundo número só consegui um pouco depois. Eu já conhecia a arte do Bill Sienkiewicz do encadernado da Elektra Assassina. Aliás, ganhei esse encadernado de um amigo adulto, casado e pai de família, porque ele comprou a revista e não gostou dos desenhos “feios”! Aliás, ele me deu os encadernados do Skreemer e do Cavaleiro das Trevas pelo mesmo motivo! Mas depois eu conto essa história em detalhes! Obviamente, gostei bem mais da arte do Sienkiewicz do que esse meu amigo e fiquei muito feliz de poder ler mais coisas desse grande artista na Graphic Novel!

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O terceiro número é uma declaração de amor do Jim Starlin ao Capitão Marvel e às HQs cósmicas. Confesso que, ao reler essa edição nessa semana, novamente escorreu uma lágrima! Que bela história! E o Capitão Marvel continua sendo o único personagem de gibi que “ainda” não voltou da morte. Não que eu saiba! Mas já deve ter voltado em alguma fase “Nova Totalmente Fabulosa Novamente Excelsiorsamente Marvel” que saiu por aí e eu não li (e nem vou ler…).

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Falei em declaração de amor? Pois é essa a sensação que o Bernie Wrightson também passa na edição quatro da série, ao retratar magnificamente uma aventura de fantasia com o bom e velho cabeça de teia. Fazia tempo que eu não tirava essa edição do “saco”, acho que uns bons 15 anos! Já tinha na minha memória afetiva a bela arte do Wrightson, mas quando comecei a reler, passei uns bons momentos parado só babando em algumas páginas duplas da revista. Só vendo pra entender! Um espetáculo de arte!

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Por fim, a primeira Graphic Novel dedicada a um personagem da DC. E já vem arrebentando tudo com “Batman: A Piada Mortal”! A última vez que reli essa HQ foi com o encadernado da Panini que trazia as cores refeitas pelo Brian Bolland numa paleta mais fria. Foi interessante rever a arte do Bolland com a paleta mais quente originalmente impressa! Apesar da história sensacional, esse número destoa do restante da coleção por ser em formato americano. Para um colecionador mais chato (já fui!), fica esquisito quando colocada junto às demais. Outra que destoou foi a do Surfista Prateado do Moebius, também em formato americano.

Pois é isso, amiguinho! Um pequeno texto de impressões (não guia de leitura e nem review) e lembranças nostálgicas e afetivas. Depois escrevo sobre as edições 06 à 10. Espero que tenha curtido!

As capas aqui presentes foram retiradas do site Guia dos Quadrinhos. Dá um pulo lá!